Wingdings I

There is only darkness.

I’ve seen it with my own eyes. Way down below, after the ruins and snow, the waterfalls and the hot streams. Farther down the caves, deep in the deepest of holes. Darkness. Beneath the core of this ever turning, spinning, revolving stone in which we all live there is a place where light has never touched, a place darker than deep outer space. Pure void. Pure darkness.

It seemed interesting, tempting if I do say so myself. So I fell in. Like a child. Dragged down by curiosity. And I kept falling, falling in the dark. I lost track of time. Must’ve been Five minutes now. Or decades. I know not.

I do know it hurts. And then it doesn’t. The body becomes one with the void. The matter and the antimatter fuse. Holes get filled, but the emptiness is still emptiness. Nothing is nothing, still. Fact is, you become less. The darkness twists and wrecks you until you’ve become almost nothing. What is left of me, by the way, is what you hear, children. The mind is the little part of me that still resides this vault. Energy.

As for my body, it is still there. Somewhere. Maybe Frank (a nickname I gave to the void) spat it out somewhere. Somewhere up above. I hope he did. I hope he’s taken me to the streams of the underground waterfalls. “Put me to sleep beneath the glow-worm stars, on the rocky Sky”, I Said. He didn’t answer. I think he was listening.

I hope they find me. Not my body, though.That I hope Frank has hidden well. I wish that someone else falls down here, on Frank. Sorry. Actually, I do not want that to happen to anybody, but it is just so boring and lonely in here. And Frank is not the talking type aswell.

Sigh.

I used to value silence and loneliness up there. Down here I just want someone to scream at me, the loudest as they can. I want someone to order me something, as they used to. Dig here, build this. I’m old, you know? I’m old and my back hurts. It used to hurt. I miss having a back.

In the void, it is so quiet, your thoughts sound like someone in the room, speaking through a megaphone. But you’ll get used to it.

So come to me, children. Adventure through the caves, find the hole. In the dark, feel no fear. Feel no fear, for I am with you. Call the world to me, for I miss it very much.

And to think I’ve only been around here for thirty seconds.

A Rocha

No cansado devaneio,

Que falta me faz,
Meu passo é certeiro
E sorrio mais
Volto à noite quente
Em que dançamos
Mas em minha mente
Nós nos amamos
Embora na quietude
Me lembro do som
Um barulho tão rude
Mas um sonho bom
E a memória melhora
Tal qual bom vinho
Mas o tempo foi embora
Deixou-me sozinho

Eterno

A primeira facada foi, sem dúvida alguma, a mais dolorosa. Os dizeres “P+P”, cravados dentro de um coração em suas costas era a prova de amor eterno entre Paulo e Paula, o casalzinho do bairro. E de amor, como todo bom limoeiro, ela entendia muito bem.
Anos atrás fora salva de uma pavimentação em massa promovida pelo então prefeito, quando foi abraçada pelo pequeno Paulo e seus pais, seu Edvaldo e dona Lúcia. Seguiu então, ao redor e incrustada em suas raízes a nova calçada. E por isso, era eternamente grata. Para os Pereira, que lhe regavam e lhe tratavam com carinho, nada além de limões suculentos e deliciosos.
Falando em limões, lembra-se de quando era uma pequena semente, germinando no chão úmido. E antes ainda, quando fora carregada no estômago de um pardal. Antes disso, não se lembra de nada.
Mas o P de Paula em suas costas, com o tempo, se transformou em um B de Betânia. Depois foi arrancado e deu lugar a um M de Maria. Até que um dia, todo o desenho, as gravuras foram arrancadas como uma lasca. Nada restou se não uma área de madeira, mais clara e nova, dando espaço para mais provas de amor eterno por vir.
Mas o tempo passa. Se foi dona Lúcia, se foi seu Edivaldo, se foi Paulinho. A cidade cresceu. Homens vinham regularmente podar seus galhos, outrora tão longos, altos e férteis, agora curtos, sem vida.
Tempos mudaram. Pessoas mudaram. O olhar em seus rostos, triste e cinza. O seu sorriso, inexistente e imóvel. Sua fixação em andar para frente, andar para frente, andar para frente. Andar. Andar. Andar. Dirigir seus carros apenas para se aborrecer ainda mais no final do dia. Até o gosto da água havia mudado. Era tão ácido, tão difícil de digerir.
Era tudo tão sem sentido.
Certo dia, um rapaz e sua namorada, depois de uma noite badalada e regada a álcool, chocaram seu pequeno carro contra seu tronco rígido. E se foram. Assim, simples. Na hora.
Não conseguia aguentar a dor. Não se importava com um par de dois galhos quebrados ali ou aqui. O que lhe machucava, e, preste atenção, machucava muito, era saber que poderia ser qualquer um. Poderia ser Paulinho e Paulinha. Ou Betânia. Ou Maria. Poderia ser Edivaldo e Lúcia, voltando pra casa.
Podia entender então, a dor. A rotina. O dia cinza dos pedestres, o sumiço de seu sorriso.
Chegou a um ponto que, amedrontadas, as pessoas sequer saiam nas ruas à noite. E com o tempo, raramente se via um ser andando na rua, mesmo sob o sol. As pessoas corriam para suas casas com seus rádios e se trancavam em grandes salas ou armários de metal com seus radinhos de pilha.
Queria ela saber o que ocorria. Queria ela se esconder com a população. Queria ela abraçar uma criança com seus galhos e lhe dizer que tudo estava bem. Mas o limoeiro via. Ouvia. Sussurrava. Talvez não alto demais. Talvez não na língua dos homens.
E um dia aconteceu. Tudo ficou laranja. Então branco. Então negro. E lá estava o limoeiro.
Estava morta, com certeza. Suas raízes se sobressaiam na areia fofa, sob o céu vermelho. Seu cadáver aguentava firme as grandes tempestades. Estava morta sim. Estava muda. Mas via e ouvia, mesmo não tendo nada para se ver. Não comia, não dormia. Não descansava, apenas observava o nada. Os escombros. As baratas andando sobre a areia.
Sem folhas, sem frutos, sem vida, observava o limoeiro, a terra esquecida.
Para sempre.

A Barra

-Ei Jacó. Tá vendo os moços ali na frente? São os Cães de Cemitério. Eles se chamam de gangue. Roubam idosos e crianças, aterrorizam as praias, assaltam o verão da garotada. De dezembro a fevereiro, roubo, terror, assalto. Roubo Terror Assalto. RouboTerrorAssalto.
Menos nos sábados. Nos Sábados eles jogam boliche.
O alto, com o cabelo ensebado, é o tal do Wilhem Johann. Não é alemão, longe disso. É Pernambucano. O filho da mãe sai do nordeste e vem pro litoral catarinense jogar boliche e roubar velhinhas. Todo ano, todo verão. Os rapazes o chamam de Billy Joe e seu pai investe no porto. Por causa disso, todo verão aluga um flat no litoral, e o Billy vem correndo atrás. Traz sua bola azul bebê com seu nome escrito nela, o sapato de couro revestido com borracha e o uniforme dos Cães. E é claro, uma Bagagem a mais para espólio.
EI GERALDO, UM CAUCASIANO AQUI POR FAVOR! MAIS LEITE, MENOS PINGA!
Continuando, do lado dele, o menino magrelo e loiro, com o cabelo na cara. Edisnaldo. O nome, embora ele nunca seja chamado assim. Até seus pais perceberam que a ideia de chamar o filho de “Edisnaldo” era péssima. Pena que 16 anos depois. Ele toca bateria na bandinha da Igreja Universal e sempre consegue o spare. Sempre. Tá ouvindo Jacó? Sempre. Isso mesmo, eu não vou repetir.
Sempre.
Os outros dois eu não conheço. Também não faço questão. Nem sei se jogam. Devem apenas seguir os Cães para todo canto querendo atenção. Ou são suas cadelas, vai saber.
Ah. Meu. Deus.
Jacó, olhe!
NÃO, não olhe!
Só um pouco.
Ok, ja deu. Aquele lá, saindo do banheiro. Ruivo, gordo, usando os óculos escuros. É, atrás dele. Os outros três rapazes. Três irmãos. Huguinho, Zezinho e Luisinho. Três patifes, eu te digo. Jogam como animais, comem como animais, são três animais! Fazem tudo junto, sempre. Usam a mesma roupa, o mesmo carro, o mesmo banheiro, inferno, eles usam a mesma namorada! Animais, Eu te disse.
Cinco anos atrás, eles tinham um líder. Toninho era como chamavam. Parece que se formou em sei lá onde e vai ser policial em qualquer lugar. Quem diria que a escória irá servir esse país COMO TODOS AQUELES JOVENS QUE VÃO PRA GUERRA E MORREM COM O ROSTO ENFIADO NA LAMA E, e…e.
Ah, cá estou novamente. Falando, falando e falando, Sabe por que eu falo tanto, Jacó? PORQUE VOCÊ NÃO FALA NADA! E sabe por que eu estou lhe contando essa história? Hum? Desses jovens infelizes?! PORQUE ISSO DEVE ACABAR! AGORA! VÁ LÁ JACÓ, PEGUE ESTA BOLA E MOSTRA PR’ELES.
– Eu vou lá Walter.
-VOCÊ VAI LÁ JACÓ!
-Eu vou lá Walter, vou mostrar pr’eles!
-SIM, SIM JACÓ, VOCÊ VAI!
-EU VOU LÁ WALTER, EU CONSIGO!
-VAI GAROTO, VOA! Isso, assim! Não. Não. Nããão…
Horrível, péssima. EI! EI JACÓ, QUER QUE EU LIGUE AS CANALETAS?
Que deplorável. Uou, Jacó, não. Não, Jacó, por favor, não se mete com eles.
Jacó volta.
Não.
NÃO!
NÃO ESSA BOLA NÃO DEVE ENTRAR AÍ!
Bem. Ah, sabe como é.
Às vezes você segura a barra e…
Às vezes a barra segura você.

Campo de Milho Pt. 2/2

Corre, corre e nunca se cansa
Seus passos pesados são com a morte uma linda dança
No campo, o diabo teve um filho
Suas pernas fortes rasgam o chão do campo de milho

 

Corre, corre, o medo espalha
Seus passos pesados espantam a Gralha
No campo, todos sucumbem ao medo
Suas fortes pernas quebram a grama seca do arvoredo

 

Corre, corre, pula e rasga
Seus passos param, mas a faca corta, dilacera e fisga
No campo, o terror é o regente
Suas pernas fortes de um homem
que com Deus foi negligente

 

 

Campo de Milho Pt. 1/2

Corre, corre, corre ofegante
Seus passos cortam seus suspiros a todo instante 
No campo, longe estão os seus amantes
Suas finas e lindas pernas não são mais tão possantes

Corre, corre, corre ofegante, sempre com medo
Seus passos cortam seus suspiros sempre tão cedo
No campo, ninguém sucumbe a seus beijos
Suas finas lindas pernas, prontas para o aleijo

Corre, Corre, sempre com medo, corre, pula e cai
Seus passos e seus suspiros cessam quando a lua sai
No campo, não existe a paz
Suas finas e lindas pernas 
Não 
Aguentam 
mais.

Três Amigos

 

Três amigos sentavam-se num bar.

Um deles, obeso e de aparência afeminada, com os seios projetadOs para frente de sua camiseta de gola V preta, pede um Martini com gelo. Estava exausto, pois passara o dia inteiro às compras, que podiam ser vistas em sacolas ao lado de seu banco.

Os outros, vendo seu amigo tomando iniciativa e iniciando a bebedeira da noite, decidem pedir suas bebidas também.

O outro, musculoso, que vestia botas de couro, uma calça jeans suja, junto com uma camisa xadrez vermelha e uma touca de lã, pediu uma cerveja comum enquanto colocava seus óculos de armação grossa que puxara do seu bolso da camisa. Os casais e grupos de amigos que estavam espalhados pelo bar, que cintilava uma luz rosada, junta de tímidos lasers verdes sincronizados.

-Hipster sujo – pensavam todos ali.

Pouco sabiam que o sujeito era nada além de um pobre lenhador com problemas visuais que buscava o deleite e o descanso em goles de uma bebida gelada.

O terceiro era negro. Preto. Mas bem preto. Muito preto. Azul de tão preto. Ou nem tanto, talvez apenas um pouco pardo.
Vestia um tênis esportivo, uma bermuda sintética e uma regata tanquinho preta. Estava cansado, e ainda bufava entre frases.
– Uma água, por favor! – pediu o terceiro rapaz ao garçom
– Achei que eu era a bixa aqui. – provocou o primeiro amigo.
– Olha aqui: você toma no meio do seu cu. – pediu o bem provido quando se fala em quantidade de melanina.
– Com prazer – respondeu o amigo.

Desviando o olhar para os outros amigos, o lenhador disse:
– Meninas, por favor… – neste instante, duas mulheres vulgarmente vestidas se aproximam.
– Chamou? – falou a loira, que estava com a maquiagem borrada, apenas um tanto retocada. Sua pele brilhava de maneira duvidosa sob a luz negra do bar.
– Cinquenta reais a hora, rapazes com os três juntos rola desconto. – explicou a morena, que vestia um vestido tomara que caia preto bem curto, apoiada sobre seus joelhos, se inclinando para o lenhador, que respondia a seus movimentos inclinando o corpo para trás.
– Moça, acho que a senhorita não entendeu, eu estava falando com meus amigos aqui…
– Só os dois? Fazemos por 75 cada.
– Queridinha, não estamos interessados em seus serviços. – falou o gordo. Obeso. Roliço. Orca escrota.
– Olha, eu não me importo de dar uma olhada no material… – disse timidamente o “pardo”, coçando a nuca.
– Perfeito! Vamos para o estacionamento. – falou a loira.
– Ah, essa eu quero ver! – exclamou o lenhador, bebendo o resto de sua cerveja e depois batendo a garrafa vazia contra a mesa, fazendo um barulho agudo que alarmou todo o bar.

Chegando aos fundos do estabelecimento, os amigos e as moças se dirigem até um carro. Um opala bem conservado de cor azul marinha com faixas pretas. A loira, fumando um cigarro, anda até o porta malas e o abre, retirando de lá uma caixa de papelão que aparentava ser pesada, e de fato era. Ela a carrega até os outros que a aguardavam a uns quatro metros de distância. Bufando o que pareciam ser reclamações sobre a falta de auxilio de sua companheira, a loira joga a caixa no chão violentamente, mas nada de seu conteúdo se compromete. Dentro da caixa, latas de alumínio alongadas e finas lacradas mas não rotuladas.
-O que é isso? – perguntou o interessado nos serviços das meninas.
-Isso vai explodir suas mentes… – falou a morena, se agachando para pegar uma das latas. Mesmo tentando expressar alguma emoção, tentando despertar interesse e surpresa na face de seus “clientes”, tudo que conseguiu foi uma cara franzida de desapontamento no pardo.

-Sério? Não vai rolar o… ‘cê sabe… Lá no… Sei lá, algum motel… Um… Algo… Um pouco mais…Err…
-Sim, assim que tomarem o que tem aqui dentro.
-Uou, uou, uou… Calma lá… – disse o lenhador, que era um pai de família amável.
-Tomarem não, tomar. Eu e o meu amigo aqui não concordamos com nada. – falou o lenhador, batendo no ombro do afeminado.=

-Ah, gente, que mal pode fazer? Elas nem devem ser… aquilo. Devem ser só revendedoras da Herbalife ou algo assim. – falou o negro, em um tom mais particular.

Os três amigos bebem as latas em conjunto. Tinham um gosto adocicado, mas deixava suas línguas curiosamente dormentes.

O vento sopra forte, muitos gritos são perceptíveis. Acorda o lenhador, no chão de um avião de carga com a porta traseira aberta, enquanto via seus dois amigos vestindo trajes militares e pára-quedas. O pardo balança a cabeça para o chão, desapontado, enquanto o gordo está chorando desesperadamente.

Ao lado dos amigos, o lenhador vê um militar, que parecia ser um comandante, alguém importante.

-Escutem aqui seus merdas, vocês aceitaram, agora terão que arcar com as consequências! – gritou o comandante.
-Eu não concordei com nada! EU QUERO A MINHA MÃE! – choramingou o afeminado.
-Hã… o quê? – disse sonolentamente o lenhador, desentendido.
-Você, soldado 65321 está indo pra Camboja!
-Quê? O QUÊ?! O QUE VOCÊ FEZ??? – disse o lenhador para o negro.
-Vocês aceitaram ser parte de uma ação voluntária para partir para a Camboja exterminar grupos rebeldes! – explicou o comandante, sutil como só.
-Mas o qu… – o lenhador foi interrompido pelo barulho das engrenagens do avião fechando a escotilha traseira. O som do vento cessou, assim como todo e qualquer barulho do avião, que parecia ter pousado, mas não se ouviu nenhum som de pneu nem freio. Era como se tivesse simplesmente se teletransportado pro chão sem mais nem menos.

De algum canto, chega um policial, de aparência britânica, com um uniforme parecido dos usados pela Scotland Yard. O homem era alto, e gozava de um bigode invejável.
– Olá, senhores. – disse o policial.
– Meu nome é West Dickens. Sou delegado representante da Policia Mundial das Piadas Ruins.
– Como? – disse o afeminado.
– Acontece que isso tudo, esse avião, o bar em que vocês estavam, até vocês mesmos e eu, tudo, é uma piada.
– Ahn…? – suspirou o lenhador.
-Droga! – disse o comandante, que desapareceu em um piscar de olhos.
– Aparentemente, temos um escritor novo na área, que está sem ideias e que tentou escrever um texto engraçado, colocando suas vidas em perigo. – disse o policial.
-Então isso tudo é uma piada? – disse o lenhador.
-Sim.
-Mas isso não tem graça nenhuma!
-Exatamente por isso estou aqui. Vamos embora rapazes, me sigam.

Os três amigos saíram do avião por uma porta lateral do avião, que então desapareceu e revelou um enorme e solitário espaço em branco, que aos poucos se revelavam sombrio, e então preto. Escuro.

Lá se vão, os 3 amigos, deixando o pobre narrador, uma mera projeção do escritor sobre o texto, aqui, no escuro, só. Eu fico muito solitário aqui as vezes. Eu sinto frio e fome. Ninguém nunca escreve histórias sobre macarrão instantâneo e cobertores. Nem uma história com dois narradores.

-Ah. – suspirei sozinho no escuro.