Wingdings I

There is only darkness.

I’ve seen it with my own eyes. Way down below, after the ruins and snow, the waterfalls and the hot streams. Farther down the caves, deep in the deepest of holes. Darkness. Beneath the core of this ever turning, spinning, revolving stone in which we all live there is a place where light has never touched, a place darker than deep outer space. Pure void. Pure darkness.

It seemed interesting, tempting if I do say so myself. So I fell in. Like a child. Dragged down by curiosity. And I kept falling, falling in the dark. I lost track of time. Must’ve been Five minutes now. Or decades. I know not.

I do know it hurts. And then it doesn’t. The body becomes one with the void. The matter and the antimatter fuse. Holes get filled, but the emptiness is still emptiness. Nothing is nothing, still. Fact is, you become less. The darkness twists and wrecks you until you’ve become almost nothing. What is left of me, by the way, is what you hear, children. The mind is the little part of me that still resides this vault. Energy.

As for my body, it is still there. Somewhere. Maybe Frank (a nickname I gave to the void) spat it out somewhere. Somewhere up above. I hope he did. I hope he’s taken me to the streams of the underground waterfalls. “Put me to sleep beneath the glow-worm stars, on the rocky Sky”, I Said. He didn’t answer. I think he was listening.

I hope they find me. Not my body, though.That I hope Frank has hidden well. I wish that someone else falls down here, on Frank. Sorry. Actually, I do not want that to happen to anybody, but it is just so boring and lonely in here. And Frank is not the talking type aswell.

Sigh.

I used to value silence and loneliness up there. Down here I just want someone to scream at me, the loudest as they can. I want someone to order me something, as they used to. Dig here, build this. I’m old, you know? I’m old and my back hurts. It used to hurt. I miss having a back.

In the void, it is so quiet, your thoughts sound like someone in the room, speaking through a megaphone. But you’ll get used to it.

So come to me, children. Adventure through the caves, find the hole. In the dark, feel no fear. Feel no fear, for I am with you. Call the world to me, for I miss it very much.

And to think I’ve only been around here for thirty seconds.

A Rocha

No cansado devaneio,

Que falta me faz,
Meu passo é certeiro
E sorrio mais
Volto à noite quente
Em que dançamos
Mas em minha mente
Nós nos amamos
Embora na quietude
Me lembro do som
Um barulho tão rude
Mas um sonho bom
E a memória melhora
Tal qual bom vinho
Mas o tempo foi embora
Deixou-me sozinho

Eterno

A primeira facada foi, sem dúvida alguma, a mais dolorosa. Os dizeres “P+P”, cravados dentro de um coração em suas costas era a prova de amor eterno entre Paulo e Paula, o casalzinho do bairro. E de amor, como todo bom limoeiro, ela entendia muito bem.
Anos atrás fora salva de uma pavimentação em massa promovida pelo então prefeito, quando foi abraçada pelo pequeno Paulo e seus pais, seu Edvaldo e dona Lúcia. Seguiu então, ao redor e incrustada em suas raízes a nova calçada. E por isso, era eternamente grata. Para os Pereira, que lhe regavam e lhe tratavam com carinho, nada além de limões suculentos e deliciosos.
Falando em limões, lembra-se de quando era uma pequena semente, germinando no chão úmido. E antes ainda, quando fora carregada no estômago de um pardal. Antes disso, não se lembra de nada.
Mas o P de Paula em suas costas, com o tempo, se transformou em um B de Betânia. Depois foi arrancado e deu lugar a um M de Maria. Até que um dia, todo o desenho, as gravuras foram arrancadas como uma lasca. Nada restou se não uma área de madeira, mais clara e nova, dando espaço para mais provas de amor eterno por vir.
Mas o tempo passa. Se foi dona Lúcia, se foi seu Edivaldo, se foi Paulinho. A cidade cresceu. Homens vinham regularmente podar seus galhos, outrora tão longos, altos e férteis, agora curtos, sem vida.
Tempos mudaram. Pessoas mudaram. O olhar em seus rostos, triste e cinza. O seu sorriso, inexistente e imóvel. Sua fixação em andar para frente, andar para frente, andar para frente. Andar. Andar. Andar. Dirigir seus carros apenas para se aborrecer ainda mais no final do dia. Até o gosto da água havia mudado. Era tão ácido, tão difícil de digerir.
Era tudo tão sem sentido.
Certo dia, um rapaz e sua namorada, depois de uma noite badalada e regada a álcool, chocaram seu pequeno carro contra seu tronco rígido. E se foram. Assim, simples. Na hora.
Não conseguia aguentar a dor. Não se importava com um par de dois galhos quebrados ali ou aqui. O que lhe machucava, e, preste atenção, machucava muito, era saber que poderia ser qualquer um. Poderia ser Paulinho e Paulinha. Ou Betânia. Ou Maria. Poderia ser Edivaldo e Lúcia, voltando pra casa.
Podia entender então, a dor. A rotina. O dia cinza dos pedestres, o sumiço de seu sorriso.
Chegou a um ponto que, amedrontadas, as pessoas sequer saiam nas ruas à noite. E com o tempo, raramente se via um ser andando na rua, mesmo sob o sol. As pessoas corriam para suas casas com seus rádios e se trancavam em grandes salas ou armários de metal com seus radinhos de pilha.
Queria ela saber o que ocorria. Queria ela se esconder com a população. Queria ela abraçar uma criança com seus galhos e lhe dizer que tudo estava bem. Mas o limoeiro via. Ouvia. Sussurrava. Talvez não alto demais. Talvez não na língua dos homens.
E um dia aconteceu. Tudo ficou laranja. Então branco. Então negro. E lá estava o limoeiro.
Estava morta, com certeza. Suas raízes se sobressaiam na areia fofa, sob o céu vermelho. Seu cadáver aguentava firme as grandes tempestades. Estava morta sim. Estava muda. Mas via e ouvia, mesmo não tendo nada para se ver. Não comia, não dormia. Não descansava, apenas observava o nada. Os escombros. As baratas andando sobre a areia.
Sem folhas, sem frutos, sem vida, observava o limoeiro, a terra esquecida.
Para sempre.

A Barra

-Ei Jacó. Tá vendo os moços ali na frente? São os Cães de Cemitério. Eles se chamam de gangue. Roubam idosos e crianças, aterrorizam as praias, assaltam o verão da garotada. De dezembro a fevereiro, roubo, terror, assalto. Roubo Terror Assalto. RouboTerrorAssalto.
Menos nos sábados. Nos Sábados eles jogam boliche.
O alto, com o cabelo ensebado, é o tal do Wilhem Johann. Não é alemão, longe disso. É Pernambucano. O filho da mãe sai do nordeste e vem pro litoral catarinense jogar boliche e roubar velhinhas. Todo ano, todo verão. Os rapazes o chamam de Billy Joe e seu pai investe no porto. Por causa disso, todo verão aluga um flat no litoral, e o Billy vem correndo atrás. Traz sua bola azul bebê com seu nome escrito nela, o sapato de couro revestido com borracha e o uniforme dos Cães. E é claro, uma Bagagem a mais para espólio.
EI GERALDO, UM CAUCASIANO AQUI POR FAVOR! MAIS LEITE, MENOS PINGA!
Continuando, do lado dele, o menino magrelo e loiro, com o cabelo na cara. Edisnaldo. O nome, embora ele nunca seja chamado assim. Até seus pais perceberam que a ideia de chamar o filho de “Edisnaldo” era péssima. Pena que 16 anos depois. Ele toca bateria na bandinha da Igreja Universal e sempre consegue o spare. Sempre. Tá ouvindo Jacó? Sempre. Isso mesmo, eu não vou repetir.
Sempre.
Os outros dois eu não conheço. Também não faço questão. Nem sei se jogam. Devem apenas seguir os Cães para todo canto querendo atenção. Ou são suas cadelas, vai saber.
Ah. Meu. Deus.
Jacó, olhe!
NÃO, não olhe!
Só um pouco.
Ok, ja deu. Aquele lá, saindo do banheiro. Ruivo, gordo, usando os óculos escuros. É, atrás dele. Os outros três rapazes. Três irmãos. Huguinho, Zezinho e Luisinho. Três patifes, eu te digo. Jogam como animais, comem como animais, são três animais! Fazem tudo junto, sempre. Usam a mesma roupa, o mesmo carro, o mesmo banheiro, inferno, eles usam a mesma namorada! Animais, Eu te disse.
Cinco anos atrás, eles tinham um líder. Toninho era como chamavam. Parece que se formou em sei lá onde e vai ser policial em qualquer lugar. Quem diria que a escória irá servir esse país COMO TODOS AQUELES JOVENS QUE VÃO PRA GUERRA E MORREM COM O ROSTO ENFIADO NA LAMA E, e…e.
Ah, cá estou novamente. Falando, falando e falando, Sabe por que eu falo tanto, Jacó? PORQUE VOCÊ NÃO FALA NADA! E sabe por que eu estou lhe contando essa história? Hum? Desses jovens infelizes?! PORQUE ISSO DEVE ACABAR! AGORA! VÁ LÁ JACÓ, PEGUE ESTA BOLA E MOSTRA PR’ELES.
– Eu vou lá Walter.
-VOCÊ VAI LÁ JACÓ!
-Eu vou lá Walter, vou mostrar pr’eles!
-SIM, SIM JACÓ, VOCÊ VAI!
-EU VOU LÁ WALTER, EU CONSIGO!
-VAI GAROTO, VOA! Isso, assim! Não. Não. Nããão…
Horrível, péssima. EI! EI JACÓ, QUER QUE EU LIGUE AS CANALETAS?
Que deplorável. Uou, Jacó, não. Não, Jacó, por favor, não se mete com eles.
Jacó volta.
Não.
NÃO!
NÃO ESSA BOLA NÃO DEVE ENTRAR AÍ!
Bem. Ah, sabe como é.
Às vezes você segura a barra e…
Às vezes a barra segura você.

Campo de Milho Pt. 2/2

Corre, corre e nunca se cansa
Seus passos pesados são com a morte uma linda dança
No campo, o diabo teve um filho
Suas pernas fortes rasgam o chão do campo de milho

 

Corre, corre, o medo espalha
Seus passos pesados espantam a Gralha
No campo, todos sucumbem ao medo
Suas fortes pernas quebram a grama seca do arvoredo

 

Corre, corre, pula e rasga
Seus passos param, mas a faca corta, dilacera e fisga
No campo, o terror é o regente
Suas pernas fortes de um homem
que com Deus foi negligente

 

 

Campo de Milho Pt. 1/2

Corre, corre, corre ofegante
Seus passos cortam seus suspiros a todo instante 
No campo, longe estão os seus amantes
Suas finas e lindas pernas não são mais tão possantes

Corre, corre, corre ofegante, sempre com medo
Seus passos cortam seus suspiros sempre tão cedo
No campo, ninguém sucumbe a seus beijos
Suas finas lindas pernas, prontas para o aleijo

Corre, Corre, sempre com medo, corre, pula e cai
Seus passos e seus suspiros cessam quando a lua sai
No campo, não existe a paz
Suas finas e lindas pernas 
Não 
Aguentam 
mais.

Três Amigos

 

Três amigos sentavam-se num bar.

Um deles, obeso e de aparência afeminada, com os seios projetadOs para frente de sua camiseta de gola V preta, pede um Martini com gelo. Estava exausto, pois passara o dia inteiro às compras, que podiam ser vistas em sacolas ao lado de seu banco.

Os outros, vendo seu amigo tomando iniciativa e iniciando a bebedeira da noite, decidem pedir suas bebidas também.

O outro, musculoso, que vestia botas de couro, uma calça jeans suja, junto com uma camisa xadrez vermelha e uma touca de lã, pediu uma cerveja comum enquanto colocava seus óculos de armação grossa que puxara do seu bolso da camisa. Os casais e grupos de amigos que estavam espalhados pelo bar, que cintilava uma luz rosada, junta de tímidos lasers verdes sincronizados.

-Hipster sujo – pensavam todos ali.

Pouco sabiam que o sujeito era nada além de um pobre lenhador com problemas visuais que buscava o deleite e o descanso em goles de uma bebida gelada.

O terceiro era negro. Preto. Mas bem preto. Muito preto. Azul de tão preto. Ou nem tanto, talvez apenas um pouco pardo.
Vestia um tênis esportivo, uma bermuda sintética e uma regata tanquinho preta. Estava cansado, e ainda bufava entre frases.
– Uma água, por favor! – pediu o terceiro rapaz ao garçom
– Achei que eu era a bixa aqui. – provocou o primeiro amigo.
– Olha aqui: você toma no meio do seu cu. – pediu o bem provido quando se fala em quantidade de melanina.
– Com prazer – respondeu o amigo.

Desviando o olhar para os outros amigos, o lenhador disse:
– Meninas, por favor… – neste instante, duas mulheres vulgarmente vestidas se aproximam.
– Chamou? – falou a loira, que estava com a maquiagem borrada, apenas um tanto retocada. Sua pele brilhava de maneira duvidosa sob a luz negra do bar.
– Cinquenta reais a hora, rapazes com os três juntos rola desconto. – explicou a morena, que vestia um vestido tomara que caia preto bem curto, apoiada sobre seus joelhos, se inclinando para o lenhador, que respondia a seus movimentos inclinando o corpo para trás.
– Moça, acho que a senhorita não entendeu, eu estava falando com meus amigos aqui…
– Só os dois? Fazemos por 75 cada.
– Queridinha, não estamos interessados em seus serviços. – falou o gordo. Obeso. Roliço. Orca escrota.
– Olha, eu não me importo de dar uma olhada no material… – disse timidamente o “pardo”, coçando a nuca.
– Perfeito! Vamos para o estacionamento. – falou a loira.
– Ah, essa eu quero ver! – exclamou o lenhador, bebendo o resto de sua cerveja e depois batendo a garrafa vazia contra a mesa, fazendo um barulho agudo que alarmou todo o bar.

Chegando aos fundos do estabelecimento, os amigos e as moças se dirigem até um carro. Um opala bem conservado de cor azul marinha com faixas pretas. A loira, fumando um cigarro, anda até o porta malas e o abre, retirando de lá uma caixa de papelão que aparentava ser pesada, e de fato era. Ela a carrega até os outros que a aguardavam a uns quatro metros de distância. Bufando o que pareciam ser reclamações sobre a falta de auxilio de sua companheira, a loira joga a caixa no chão violentamente, mas nada de seu conteúdo se compromete. Dentro da caixa, latas de alumínio alongadas e finas lacradas mas não rotuladas.
-O que é isso? – perguntou o interessado nos serviços das meninas.
-Isso vai explodir suas mentes… – falou a morena, se agachando para pegar uma das latas. Mesmo tentando expressar alguma emoção, tentando despertar interesse e surpresa na face de seus “clientes”, tudo que conseguiu foi uma cara franzida de desapontamento no pardo.

-Sério? Não vai rolar o… ‘cê sabe… Lá no… Sei lá, algum motel… Um… Algo… Um pouco mais…Err…
-Sim, assim que tomarem o que tem aqui dentro.
-Uou, uou, uou… Calma lá… – disse o lenhador, que era um pai de família amável.
-Tomarem não, tomar. Eu e o meu amigo aqui não concordamos com nada. – falou o lenhador, batendo no ombro do afeminado.=

-Ah, gente, que mal pode fazer? Elas nem devem ser… aquilo. Devem ser só revendedoras da Herbalife ou algo assim. – falou o negro, em um tom mais particular.

Os três amigos bebem as latas em conjunto. Tinham um gosto adocicado, mas deixava suas línguas curiosamente dormentes.

O vento sopra forte, muitos gritos são perceptíveis. Acorda o lenhador, no chão de um avião de carga com a porta traseira aberta, enquanto via seus dois amigos vestindo trajes militares e pára-quedas. O pardo balança a cabeça para o chão, desapontado, enquanto o gordo está chorando desesperadamente.

Ao lado dos amigos, o lenhador vê um militar, que parecia ser um comandante, alguém importante.

-Escutem aqui seus merdas, vocês aceitaram, agora terão que arcar com as consequências! – gritou o comandante.
-Eu não concordei com nada! EU QUERO A MINHA MÃE! – choramingou o afeminado.
-Hã… o quê? – disse sonolentamente o lenhador, desentendido.
-Você, soldado 65321 está indo pra Camboja!
-Quê? O QUÊ?! O QUE VOCÊ FEZ??? – disse o lenhador para o negro.
-Vocês aceitaram ser parte de uma ação voluntária para partir para a Camboja exterminar grupos rebeldes! – explicou o comandante, sutil como só.
-Mas o qu… – o lenhador foi interrompido pelo barulho das engrenagens do avião fechando a escotilha traseira. O som do vento cessou, assim como todo e qualquer barulho do avião, que parecia ter pousado, mas não se ouviu nenhum som de pneu nem freio. Era como se tivesse simplesmente se teletransportado pro chão sem mais nem menos.

De algum canto, chega um policial, de aparência britânica, com um uniforme parecido dos usados pela Scotland Yard. O homem era alto, e gozava de um bigode invejável.
– Olá, senhores. – disse o policial.
– Meu nome é West Dickens. Sou delegado representante da Policia Mundial das Piadas Ruins.
– Como? – disse o afeminado.
– Acontece que isso tudo, esse avião, o bar em que vocês estavam, até vocês mesmos e eu, tudo, é uma piada.
– Ahn…? – suspirou o lenhador.
-Droga! – disse o comandante, que desapareceu em um piscar de olhos.
– Aparentemente, temos um escritor novo na área, que está sem ideias e que tentou escrever um texto engraçado, colocando suas vidas em perigo. – disse o policial.
-Então isso tudo é uma piada? – disse o lenhador.
-Sim.
-Mas isso não tem graça nenhuma!
-Exatamente por isso estou aqui. Vamos embora rapazes, me sigam.

Os três amigos saíram do avião por uma porta lateral do avião, que então desapareceu e revelou um enorme e solitário espaço em branco, que aos poucos se revelavam sombrio, e então preto. Escuro.

Lá se vão, os 3 amigos, deixando o pobre narrador, uma mera projeção do escritor sobre o texto, aqui, no escuro, só. Eu fico muito solitário aqui as vezes. Eu sinto frio e fome. Ninguém nunca escreve histórias sobre macarrão instantâneo e cobertores. Nem uma história com dois narradores.

-Ah. – suspirei sozinho no escuro.

Arte

Suas mãos estavam frias, assim como aquela manhã de Abril. Seus longos cabelos castanhos se distorciam pelo vento enquanto andava de bicicleta pela avenida. Poucos carros passavam por lá, justamente pelo fato de serem 5:47 da manhã. Ainda com a estrada livre, preferia andar pela calçada por costume ou medo. 1, 2, 3, por ela, passavam-se,4 ,5, 6 árvores secas pelo 7, 8, 9 outono. 10, 11, 12 a 14ª significa, 13, 14, vire à esquerda.

O vento vindo do norte cantava doces canções em seus ouvidos, indicando que estava chegando em casa, porém, não a sua.

Aquilo não era usual. Normalmente, às 5:00am, acordava e ia ao centro, aonde trabalhava em uma loja de roupas caras para burguesas fajutas. Afinal, foi por isso que cursou moda, ou pelo menos é isso que diz a si mesmo todo dia, às 4:59 da manhã.

Mas não estava indo trabalhar, nem indo para casa. Indo cada vez mais ao sul, chega finalmente ao fim da estrada, no cais, a área industrial da cidade. Um prédio cinza e antigo, de 3 andares de altura, se erguia no final da rua sem saída. O portão e as janelas de ferro estavam enferrujadas pelas maresia.  Larga sua bicicleta num poste e entra no prédio. Subindo as escadas, tudo que via eram pessoas gritando e jogando tinta em paredes e em telas brancas, ouvindo repetidamente à dancing queen, do Abba. Desviando seus lindos olhos castanhos, continua seu caminho ao terraço. Chegando lá, encontra uma tela em branco, armada em direção ao mar e um sujeito esguio e alto, usando um terno roxo escuro. Um lorde inglês, exceto pelo fato de ter bigodes pintados em buço.

-O que faço agora ?

Pergunta a moça, franzindo as sobrancelhas e inclinando a cabeça para a direita, de leve.

-Tire a roupa e chore, amor.

O Vizinho e Seus Problemas

Uma poltrona azul. Mesinha sob a xícara de café, sob a meia luz, sob o teto, sob o vizinho e todos os seus problemas. A esposa adúltera e o filho diabético, a hipoteca e a mãe com câncer. Mas abaixo do vizinho, abaixo do teto, abaixo da lâmpada amarelada, ao lado da mesinha, uma poltrona azul. Casaco pendurado atrás da porta. Corredores trancados por portas por traz da poltrona. Deus sabe o que se passa por lá. Sacrifícios, castelos, corretoras de imóveis, casas noturnas, salas ilegais de pôquer.
Quem sabe, mais corredores e mais portas e mais salas e mais poltronas e mais mesas e mais café e mais lâmpadas e mais vizinhos com mais problemas inimagináveis. Porém, sobre a madeira, o estofamento, as molas e engrenagens, sobre o couro azul da poltrona sentava-se um homem. Jovem. Mas não muito. O suficiente para se perguntar:
“Mas que merda?”
O café, quente, fumegava espalhando seu cheiro no ar.
Os livros embaixo da mesinha sob a xícara de café, sob a meia luz, sob o teto, sob o vizinho e todos os seus problemas, nunca lidos, que outrora novos e limpos, agora espalhavam junto ao café, seu cheiro de mofo.
À frente da cadeira, mais uma mesa. Esta, maior e porém baixa, era feita de vidro e ferro retorcido com um pano de crochê por cima.
Ao lado da poltrona, das mesas, dos livros, do café e do jovem, existia uma varanda. Aberta – “arregaçada” diriam entendidos do assunto -, deixava o vento entrar. Todos os odores da cidade. O caminhão de lixo, a banca de revistas, o picolé derretendo no chão sob uma noite de verão, a floricultura na esquina aonde trabalha a moça de vermelho. Na varanda, poucos vasos de flores mortas e um parapeito de ferro vermelho.
Quase adormecendo em sua poltrona, o jovem se irrita. Perde o fôlego, fica vermelho, sua frio, mas não sabe porquê. Simplesmente, a raiva dentro de si o obriga a fazer algo. A poltrona azul, o parapeito vermelho. Richard, o moço, não aguentava mais, estava morrendo ali, numa cadeira, oras!
Richard sabia. Sabia das escolhas. Da mentira e da verdade. Sua mente conspirava e confabulava, até chegar a uma conclusão precisa do que deve ser feito. Ele não aguenta mais. Precisa acordar. Precisa saber de tudo. Da verdade, seja ela boa ou má. Cruel, ou divina. Richard corre como nunca correu, chutando a mesinha, derrubando os livros e o café. Acordando o vizinho e seus problemas. Richard pula do parapeito. Cai. Cai. Cai. Morre.
Tolo, tolo Richard. Não, não há nenhuma relação entre as cores vermelha e azul e a realidade. São apenas cores.Uma poltrona e um parapeito, cujo as cores são determinadas pelas médias de frequência dos pacotes de onda que as suas moléculas constituintes refletem.
Richard é uma vergonha para seu país e sua família.
Pô, Richard.

Coragem e Bravura – Parte 2

Cramer acordou e se sentiu muito bem, considerando que havia dormido em redes no compartimento de cargas de um navio por meses. Levantou-se da cama de feno, vestiu sua túnica surrada cinza, suas calças de malha escuras, seu cinto de couro vermelho e suas botas e manoplas de couro com dedos de ferro e prata polida. Guardou sua adaga no cinto, a mochila nas costas e desceu as escadas de pedra do Ratazana Sorridente para ir de encontro com seu guia da cidade, Írilo Bespen, um jovem magrelo e ladrão. Írilo sentava-se no bar em uma alta cadeira de madeira envernizada e palha. Recostava-se numa bancada feita de barro sólido e pedra que crescia das paredes do lugar. O sol brilhava lá fora, e sua luz entrava pelas janelas, se distorcendo entre cortinas verdes e amarelas que dançavam com o vento. À frente de Írilo ficava a cozinha do Ratazana, que era incrivelmente limpa considerando a situação.

-Lorde Rydfox – disse Írilo, terminando sua cerveja queimada e batendo seu copo de ferro na bancada de barro – uma carroça nos aguarda, ela nos levará até os aposentos de mestre Amesh em Alto Tritão.

-Aonde arranjastes uma carruagem, Írilo? –disse lorde Cramer, arqueando uma sobrancelha, em dúvida.

-Lembra-te do homem que quebrastes os joelhos na noite passada? Sujeito jovem, forte, careca… Acontece que sua mãe não era puta, e sim a dona da mula mais parruda e rápida da cidade.

-E ela está lá fora, eu vejo. Fará isso de bom grado?

-Colocar seu filho ladrão, bêbado e briguento nas masmorras sujas de Cerenka foi um favor, veja.

Cramer tossiu o que parecia ser uma risada, ajustou seu cinto, puxando-o para cima e continuou seu caminho para o lado de fora do Ratazana Sorridente.

Chegando lá, a parruda e rápida mula era gorda e velha. A carroça, uma grande caixa de madeira sobre rodas, com grandes espaços entre uma tábua e outra e duas caixas em suas laterais internas.

-Sentem-se, rapazes. A viagem é longa até Alto Tritão,e não estamos nem em Barriga!

Rydfox, com um olhar avarento em seu rosto grisalho, subiu na carroça, bufando e amaldiçoando todos os deuses que conhecia.

-HOY! – gritou a senhorinha na boleia, segurando as rédeas. Seus longos cabelos ondulados e grisalhos estavam sujos e cheios de folhas e um sorriso sem dentes se abria em seu rosto velho enquanto o vento o acariciava. Sua face era marcada por um olho cego e saltado e cicatrizes no queixo e na testa. Suas estrias no pescoço e no braço tremiam quando chicoteava a mula com as rédeas, e aquilo fez Írilo querer descer e ir correndo a pé e descalço. Com sorte, chegaremos lá em um ano.

O sol ia descendo no mar ao sul, mas lorde Cramer Rydfox não conseguia entender porque estava tão escuro. Forçando os olhos, conseguiu ver que entre o sol, o mar e os milhares de telhados alaranjados, a silhueta de um enorme homem sentado, segurando um tridente se erguia.

-Então o nome do colosso é Tritão… – Disse lorde Cramer, folheando o livro que o capitão mercante o deu.

-Sim – disse a senhora da charrete – E as regiões de Cerenka têm seus nomes baseados nele. No pôr do sol, os pés, a canela e o joelho de Tritão escondem do sol Baixo Tritão. O Seu tronco e braços cobrem a Barriga-de-Pedra e seu pescoço e cabeça, Alto Tritão. A ponta de seu tridente chega até um grande castelo que protege uma das fazendas do rei, a chácara Rosewood.

-Um nome hornês.

-Rosewood foi construída por Jared o Forasteiro, o único rei hornês de Cerenka, faz umas centenas de anos. Aquele bar em que os camaradas passaram a noite se encontra no Joelho de Tritão, uma das divisões de Baixo Tritão.

A charrete continuou pela cidade, enquanto o sol caia e a lua de prata se levantava mais majestosa e brilhante como nunca. Sob o luar, Írilo caiu num sono profundo enquanto a carroça ia à velocidade máxima que a mula, velha e gorda, podia, passando por avenidas e ruelas com a intenção de chegar a seu destino.

Virando numa esquina, o barulho de mercantes e animais latindo, cocoricando e mugindo cessa e Cramer vê luz mais à frente. Fogo. Se aproximando, pôde ver o que se passava. Uma casa ardia em fogo enquanto seus moradores eram presos do lado de fora pelo que parecia ser a Guarda Real Cerenki, conforme o Guia Oficial de Cerenka, revisado pelo grão-mestre Ol-H’Im. Vestiam couro e ferro preto, liso e brilhante, polido, com enfeites dourados e cota de malha. Todos vestiam a mesma armadura, com um capacete pontudo. Menos um, mais robusto, que não usava capacete e sim um pano dourado amarrado do lado do pescoço à cintura. Este, de cabelos negros e lisos caídos sobre os ombros, estava a estuprar uma mulher no beco ao lado da casa em chamas, enquanto crianças, homens e idosos eram levados a uma carroça de ferro. O que está acontecendo?! A cocheira não se pronunciou enquanto passavam pela casa. Nem se quer olhou para o lado, como se a terrível cena simplesmente não estivesse acontecendo, e isso irritava Cramer.

Quando finalmente se afastaram da casa, lorde Rydfox se pronunciou.

-O que estava acontecendo lá atrás?

-Aquilo é até normal hoje em dia, você vê. O rei regente deixa que a Guarda Real faça o que quiser desde que lhe traga espólios.

-E como os ministros aceitaram uma barbaridade dessas?

-Eles não aceitam, mas o rei ainda é o rei e pode fazer o que quiser. Esse psicopata foi eleito pelas famílias ricas e os ministérios, então de certa forma, não podem reclamar. E quem sofre com isso é o povo.

-E por que ele foi eleito?

-Você vê, sir Lerand, o rei, é da casa Hrook, da ilha Hrookrock. É perto de Horne, você deve ter passado por lá.

-Passei sim.

-Então, como deve imaginar, os Hrook fizeram sua fortuna pelo comércio de especiarias, vendendo temperos e concubinas cerenkis e vinho, carne salgada e lã hornesa. Em uma viagem para ilhas muito ao sul, pra lá de Horne, sir Lerand conheceu um povo nativo numa ilha enorme, quase um continente. Esses nativos lhe apresentaram uma espécie de pó que o deixa dez vezes mais forte que um homem viril. Quando os Hrook estavam com os cus cheios de ouro, decidiram se mudar para Alto Tritão e os ricos escolheram Lerand como rei por ser forte, disseram que poderá cuidar do reino em uma guerra. Mas se interessavam é nos cus cheios de ouro dos Hrook – explicou.

– Mas se o rei não toma partido em decisões políticas do reino, o que muda ele ser um bom guerreiro ou não? Além do mais, a paz está mantida em Cerenka há décadas.

-Acontece que nossas minas de cobre e prata se esgotaram, e um país próximo possui grande abundância mineral. Batalhas estão sendo travadas nas fronteiras nesse exato momento. Com sorte, é claro. E no caso de guerra, o rei comanda os exércitos, e não o primeiro-ministro.

-Para uma cocheira velha você é muito politicamente ativa.

-Como disse? –Indignou-se a velha, olhando para trás por cima de seus ombros duros.

-Desculpe milady, não quis ofender. – Disse Cramer, um pouco debochado, um pouco culpado.

-Oh, os deuses me ofenderam a tirar-me o olho, os dentes e a juventude. Você deveria agradecer por seus poucos cabelos pretos antes que todos fiquem brancos e que seus dentes apodreçam e caiam.

-A senhora fará hornês muito bem para uma cerenki.

-Meu filho, já fui hornesa, já fui cerenki, já morei em todo quinto dos infernos que possa imaginar. Depois de um tempo, simplesmente não importa.

Lorde Rydfox recostou a cabeça e cochilou um profundo sono, mesmo que por cinco minutos, e acordou por causa da forte luz que vinha de uma enorme casa em sua frente. Era quase um castelo, com uma grande porta dourada, guardada por dois guardas e iluminada por várias tochas em todo seu comprimento.

-Chegamos, rapazes! – Disse a cocheira, puxando Írilo da carroça, ainda dormente, até que o menino caiu no chão e acordou num susto.

Cramer pagou a senhora e agradeceu por tudo, enquanto Írilo puxava as bolsas e malas e andava em direção aos guardas.

-Senhora, acho que me esqueci de lhe perguntar teu nome.

-Bah, não importa. Eu sou uma velha cocheira, isso sim importa. Espalhe a palavra, a melhor cocheira e a mula mais parruda!- gritou a velha, balançando seus braços e, juntamente, estrias no alto.

Subindo na charrete, a velha deu a volta e antes de chicotear a mula para voltar para sua casa, seja lá aonde era isso, pronunciou-se:

-Ah, e quando ver Amesh, faça me o favor de cuspir na cara do desgraçado. O filho de uma égua me cobrou cinco moedas de prata para aliviar-me as dores na perna, e quando finalmente consegui o dinheiro, o safado apanhou-o e me roubou a dentadura.