Eterno

A primeira facada foi, sem dúvida alguma, a mais dolorosa. Os dizeres “P+P”, cravados dentro de um coração em suas costas era a prova de amor eterno entre Paulo e Paula, o casalzinho do bairro. E de amor, como todo bom limoeiro, ela entendia muito bem.
Anos atrás fora salva de uma pavimentação em massa promovida pelo então prefeito, quando foi abraçada pelo pequeno Paulo e seus pais, seu Edvaldo e dona Lúcia. Seguiu então, ao redor e incrustada em suas raízes a nova calçada. E por isso, era eternamente grata. Para os Pereira, que lhe regavam e lhe tratavam com carinho, nada além de limões suculentos e deliciosos.
Falando em limões, lembra-se de quando era uma pequena semente, germinando no chão úmido. E antes ainda, quando fora carregada no estômago de um pardal. Antes disso, não se lembra de nada.
Mas o P de Paula em suas costas, com o tempo, se transformou em um B de Betânia. Depois foi arrancado e deu lugar a um M de Maria. Até que um dia, todo o desenho, as gravuras foram arrancadas como uma lasca. Nada restou se não uma área de madeira, mais clara e nova, dando espaço para mais provas de amor eterno por vir.
Mas o tempo passa. Se foi dona Lúcia, se foi seu Edivaldo, se foi Paulinho. A cidade cresceu. Homens vinham regularmente podar seus galhos, outrora tão longos, altos e férteis, agora curtos, sem vida.
Tempos mudaram. Pessoas mudaram. O olhar em seus rostos, triste e cinza. O seu sorriso, inexistente e imóvel. Sua fixação em andar para frente, andar para frente, andar para frente. Andar. Andar. Andar. Dirigir seus carros apenas para se aborrecer ainda mais no final do dia. Até o gosto da água havia mudado. Era tão ácido, tão difícil de digerir.
Era tudo tão sem sentido.
Certo dia, um rapaz e sua namorada, depois de uma noite badalada e regada a álcool, chocaram seu pequeno carro contra seu tronco rígido. E se foram. Assim, simples. Na hora.
Não conseguia aguentar a dor. Não se importava com um par de dois galhos quebrados ali ou aqui. O que lhe machucava, e, preste atenção, machucava muito, era saber que poderia ser qualquer um. Poderia ser Paulinho e Paulinha. Ou Betânia. Ou Maria. Poderia ser Edivaldo e Lúcia, voltando pra casa.
Podia entender então, a dor. A rotina. O dia cinza dos pedestres, o sumiço de seu sorriso.
Chegou a um ponto que, amedrontadas, as pessoas sequer saiam nas ruas à noite. E com o tempo, raramente se via um ser andando na rua, mesmo sob o sol. As pessoas corriam para suas casas com seus rádios e se trancavam em grandes salas ou armários de metal com seus radinhos de pilha.
Queria ela saber o que ocorria. Queria ela se esconder com a população. Queria ela abraçar uma criança com seus galhos e lhe dizer que tudo estava bem. Mas o limoeiro via. Ouvia. Sussurrava. Talvez não alto demais. Talvez não na língua dos homens.
E um dia aconteceu. Tudo ficou laranja. Então branco. Então negro. E lá estava o limoeiro.
Estava morta, com certeza. Suas raízes se sobressaiam na areia fofa, sob o céu vermelho. Seu cadáver aguentava firme as grandes tempestades. Estava morta sim. Estava muda. Mas via e ouvia, mesmo não tendo nada para se ver. Não comia, não dormia. Não descansava, apenas observava o nada. Os escombros. As baratas andando sobre a areia.
Sem folhas, sem frutos, sem vida, observava o limoeiro, a terra esquecida.
Para sempre.

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