O Vizinho e Seus Problemas

Uma poltrona azul. Mesinha sob a xícara de café, sob a meia luz, sob o teto, sob o vizinho e todos os seus problemas. A esposa adúltera e o filho diabético, a hipoteca e a mãe com câncer. Mas abaixo do vizinho, abaixo do teto, abaixo da lâmpada amarelada, ao lado da mesinha, uma poltrona azul. Casaco pendurado atrás da porta. Corredores trancados por portas por traz da poltrona. Deus sabe o que se passa por lá. Sacrifícios, castelos, corretoras de imóveis, casas noturnas, salas ilegais de pôquer.
Quem sabe, mais corredores e mais portas e mais salas e mais poltronas e mais mesas e mais café e mais lâmpadas e mais vizinhos com mais problemas inimagináveis. Porém, sobre a madeira, o estofamento, as molas e engrenagens, sobre o couro azul da poltrona sentava-se um homem. Jovem. Mas não muito. O suficiente para se perguntar:
“Mas que merda?”
O café, quente, fumegava espalhando seu cheiro no ar.
Os livros embaixo da mesinha sob a xícara de café, sob a meia luz, sob o teto, sob o vizinho e todos os seus problemas, nunca lidos, que outrora novos e limpos, agora espalhavam junto ao café, seu cheiro de mofo.
À frente da cadeira, mais uma mesa. Esta, maior e porém baixa, era feita de vidro e ferro retorcido com um pano de crochê por cima.
Ao lado da poltrona, das mesas, dos livros, do café e do jovem, existia uma varanda. Aberta – “arregaçada” diriam entendidos do assunto -, deixava o vento entrar. Todos os odores da cidade. O caminhão de lixo, a banca de revistas, o picolé derretendo no chão sob uma noite de verão, a floricultura na esquina aonde trabalha a moça de vermelho. Na varanda, poucos vasos de flores mortas e um parapeito de ferro vermelho.
Quase adormecendo em sua poltrona, o jovem se irrita. Perde o fôlego, fica vermelho, sua frio, mas não sabe porquê. Simplesmente, a raiva dentro de si o obriga a fazer algo. A poltrona azul, o parapeito vermelho. Richard, o moço, não aguentava mais, estava morrendo ali, numa cadeira, oras!
Richard sabia. Sabia das escolhas. Da mentira e da verdade. Sua mente conspirava e confabulava, até chegar a uma conclusão precisa do que deve ser feito. Ele não aguenta mais. Precisa acordar. Precisa saber de tudo. Da verdade, seja ela boa ou má. Cruel, ou divina. Richard corre como nunca correu, chutando a mesinha, derrubando os livros e o café. Acordando o vizinho e seus problemas. Richard pula do parapeito. Cai. Cai. Cai. Morre.
Tolo, tolo Richard. Não, não há nenhuma relação entre as cores vermelha e azul e a realidade. São apenas cores.Uma poltrona e um parapeito, cujo as cores são determinadas pelas médias de frequência dos pacotes de onda que as suas moléculas constituintes refletem.
Richard é uma vergonha para seu país e sua família.
Pô, Richard.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s