Três Amigos

 

Três amigos sentavam-se num bar.

Um deles, obeso e de aparência afeminada, com os seios projetadOs para frente de sua camiseta de gola V preta, pede um Martini com gelo. Estava exausto, pois passara o dia inteiro às compras, que podiam ser vistas em sacolas ao lado de seu banco.

Os outros, vendo seu amigo tomando iniciativa e iniciando a bebedeira da noite, decidem pedir suas bebidas também.

O outro, musculoso, que vestia botas de couro, uma calça jeans suja, junto com uma camisa xadrez vermelha e uma touca de lã, pediu uma cerveja comum enquanto colocava seus óculos de armação grossa que puxara do seu bolso da camisa. Os casais e grupos de amigos que estavam espalhados pelo bar, que cintilava uma luz rosada, junta de tímidos lasers verdes sincronizados.

-Hipster sujo – pensavam todos ali.

Pouco sabiam que o sujeito era nada além de um pobre lenhador com problemas visuais que buscava o deleite e o descanso em goles de uma bebida gelada.

O terceiro era negro. Preto. Mas bem preto. Muito preto. Azul de tão preto. Ou nem tanto, talvez apenas um pouco pardo.
Vestia um tênis esportivo, uma bermuda sintética e uma regata tanquinho preta. Estava cansado, e ainda bufava entre frases.
– Uma água, por favor! – pediu o terceiro rapaz ao garçom
– Achei que eu era a bixa aqui. – provocou o primeiro amigo.
– Olha aqui: você toma no meio do seu cu. – pediu o bem provido quando se fala em quantidade de melanina.
– Com prazer – respondeu o amigo.

Desviando o olhar para os outros amigos, o lenhador disse:
– Meninas, por favor… – neste instante, duas mulheres vulgarmente vestidas se aproximam.
– Chamou? – falou a loira, que estava com a maquiagem borrada, apenas um tanto retocada. Sua pele brilhava de maneira duvidosa sob a luz negra do bar.
– Cinquenta reais a hora, rapazes com os três juntos rola desconto. – explicou a morena, que vestia um vestido tomara que caia preto bem curto, apoiada sobre seus joelhos, se inclinando para o lenhador, que respondia a seus movimentos inclinando o corpo para trás.
– Moça, acho que a senhorita não entendeu, eu estava falando com meus amigos aqui…
– Só os dois? Fazemos por 75 cada.
– Queridinha, não estamos interessados em seus serviços. – falou o gordo. Obeso. Roliço. Orca escrota.
– Olha, eu não me importo de dar uma olhada no material… – disse timidamente o “pardo”, coçando a nuca.
– Perfeito! Vamos para o estacionamento. – falou a loira.
– Ah, essa eu quero ver! – exclamou o lenhador, bebendo o resto de sua cerveja e depois batendo a garrafa vazia contra a mesa, fazendo um barulho agudo que alarmou todo o bar.

Chegando aos fundos do estabelecimento, os amigos e as moças se dirigem até um carro. Um opala bem conservado de cor azul marinha com faixas pretas. A loira, fumando um cigarro, anda até o porta malas e o abre, retirando de lá uma caixa de papelão que aparentava ser pesada, e de fato era. Ela a carrega até os outros que a aguardavam a uns quatro metros de distância. Bufando o que pareciam ser reclamações sobre a falta de auxilio de sua companheira, a loira joga a caixa no chão violentamente, mas nada de seu conteúdo se compromete. Dentro da caixa, latas de alumínio alongadas e finas lacradas mas não rotuladas.
-O que é isso? – perguntou o interessado nos serviços das meninas.
-Isso vai explodir suas mentes… – falou a morena, se agachando para pegar uma das latas. Mesmo tentando expressar alguma emoção, tentando despertar interesse e surpresa na face de seus “clientes”, tudo que conseguiu foi uma cara franzida de desapontamento no pardo.

-Sério? Não vai rolar o… ‘cê sabe… Lá no… Sei lá, algum motel… Um… Algo… Um pouco mais…Err…
-Sim, assim que tomarem o que tem aqui dentro.
-Uou, uou, uou… Calma lá… – disse o lenhador, que era um pai de família amável.
-Tomarem não, tomar. Eu e o meu amigo aqui não concordamos com nada. – falou o lenhador, batendo no ombro do afeminado.=

-Ah, gente, que mal pode fazer? Elas nem devem ser… aquilo. Devem ser só revendedoras da Herbalife ou algo assim. – falou o negro, em um tom mais particular.

Os três amigos bebem as latas em conjunto. Tinham um gosto adocicado, mas deixava suas línguas curiosamente dormentes.

O vento sopra forte, muitos gritos são perceptíveis. Acorda o lenhador, no chão de um avião de carga com a porta traseira aberta, enquanto via seus dois amigos vestindo trajes militares e pára-quedas. O pardo balança a cabeça para o chão, desapontado, enquanto o gordo está chorando desesperadamente.

Ao lado dos amigos, o lenhador vê um militar, que parecia ser um comandante, alguém importante.

-Escutem aqui seus merdas, vocês aceitaram, agora terão que arcar com as consequências! – gritou o comandante.
-Eu não concordei com nada! EU QUERO A MINHA MÃE! – choramingou o afeminado.
-Hã… o quê? – disse sonolentamente o lenhador, desentendido.
-Você, soldado 65321 está indo pra Camboja!
-Quê? O QUÊ?! O QUE VOCÊ FEZ??? – disse o lenhador para o negro.
-Vocês aceitaram ser parte de uma ação voluntária para partir para a Camboja exterminar grupos rebeldes! – explicou o comandante, sutil como só.
-Mas o qu… – o lenhador foi interrompido pelo barulho das engrenagens do avião fechando a escotilha traseira. O som do vento cessou, assim como todo e qualquer barulho do avião, que parecia ter pousado, mas não se ouviu nenhum som de pneu nem freio. Era como se tivesse simplesmente se teletransportado pro chão sem mais nem menos.

De algum canto, chega um policial, de aparência britânica, com um uniforme parecido dos usados pela Scotland Yard. O homem era alto, e gozava de um bigode invejável.
– Olá, senhores. – disse o policial.
– Meu nome é West Dickens. Sou delegado representante da Policia Mundial das Piadas Ruins.
– Como? – disse o afeminado.
– Acontece que isso tudo, esse avião, o bar em que vocês estavam, até vocês mesmos e eu, tudo, é uma piada.
– Ahn…? – suspirou o lenhador.
-Droga! – disse o comandante, que desapareceu em um piscar de olhos.
– Aparentemente, temos um escritor novo na área, que está sem ideias e que tentou escrever um texto engraçado, colocando suas vidas em perigo. – disse o policial.
-Então isso tudo é uma piada? – disse o lenhador.
-Sim.
-Mas isso não tem graça nenhuma!
-Exatamente por isso estou aqui. Vamos embora rapazes, me sigam.

Os três amigos saíram do avião por uma porta lateral do avião, que então desapareceu e revelou um enorme e solitário espaço em branco, que aos poucos se revelavam sombrio, e então preto. Escuro.

Lá se vão, os 3 amigos, deixando o pobre narrador, uma mera projeção do escritor sobre o texto, aqui, no escuro, só. Eu fico muito solitário aqui as vezes. Eu sinto frio e fome. Ninguém nunca escreve histórias sobre macarrão instantâneo e cobertores. Nem uma história com dois narradores.

-Ah. – suspirei sozinho no escuro.

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