Coragem e Bravura – Parte 2

Cramer acordou e se sentiu muito bem, considerando que havia dormido em redes no compartimento de cargas de um navio por meses. Levantou-se da cama de feno, vestiu sua túnica surrada cinza, suas calças de malha escuras, seu cinto de couro vermelho e suas botas e manoplas de couro com dedos de ferro e prata polida. Guardou sua adaga no cinto, a mochila nas costas e desceu as escadas de pedra do Ratazana Sorridente para ir de encontro com seu guia da cidade, Írilo Bespen, um jovem magrelo e ladrão. Írilo sentava-se no bar em uma alta cadeira de madeira envernizada e palha. Recostava-se numa bancada feita de barro sólido e pedra que crescia das paredes do lugar. O sol brilhava lá fora, e sua luz entrava pelas janelas, se distorcendo entre cortinas verdes e amarelas que dançavam com o vento. À frente de Írilo ficava a cozinha do Ratazana, que era incrivelmente limpa considerando a situação.

-Lorde Rydfox – disse Írilo, terminando sua cerveja queimada e batendo seu copo de ferro na bancada de barro – uma carroça nos aguarda, ela nos levará até os aposentos de mestre Amesh em Alto Tritão.

-Aonde arranjastes uma carruagem, Írilo? –disse lorde Cramer, arqueando uma sobrancelha, em dúvida.

-Lembra-te do homem que quebrastes os joelhos na noite passada? Sujeito jovem, forte, careca… Acontece que sua mãe não era puta, e sim a dona da mula mais parruda e rápida da cidade.

-E ela está lá fora, eu vejo. Fará isso de bom grado?

-Colocar seu filho ladrão, bêbado e briguento nas masmorras sujas de Cerenka foi um favor, veja.

Cramer tossiu o que parecia ser uma risada, ajustou seu cinto, puxando-o para cima e continuou seu caminho para o lado de fora do Ratazana Sorridente.

Chegando lá, a parruda e rápida mula era gorda e velha. A carroça, uma grande caixa de madeira sobre rodas, com grandes espaços entre uma tábua e outra e duas caixas em suas laterais internas.

-Sentem-se, rapazes. A viagem é longa até Alto Tritão,e não estamos nem em Barriga!

Rydfox, com um olhar avarento em seu rosto grisalho, subiu na carroça, bufando e amaldiçoando todos os deuses que conhecia.

-HOY! – gritou a senhorinha na boleia, segurando as rédeas. Seus longos cabelos ondulados e grisalhos estavam sujos e cheios de folhas e um sorriso sem dentes se abria em seu rosto velho enquanto o vento o acariciava. Sua face era marcada por um olho cego e saltado e cicatrizes no queixo e na testa. Suas estrias no pescoço e no braço tremiam quando chicoteava a mula com as rédeas, e aquilo fez Írilo querer descer e ir correndo a pé e descalço. Com sorte, chegaremos lá em um ano.

O sol ia descendo no mar ao sul, mas lorde Cramer Rydfox não conseguia entender porque estava tão escuro. Forçando os olhos, conseguiu ver que entre o sol, o mar e os milhares de telhados alaranjados, a silhueta de um enorme homem sentado, segurando um tridente se erguia.

-Então o nome do colosso é Tritão… – Disse lorde Cramer, folheando o livro que o capitão mercante o deu.

-Sim – disse a senhora da charrete – E as regiões de Cerenka têm seus nomes baseados nele. No pôr do sol, os pés, a canela e o joelho de Tritão escondem do sol Baixo Tritão. O Seu tronco e braços cobrem a Barriga-de-Pedra e seu pescoço e cabeça, Alto Tritão. A ponta de seu tridente chega até um grande castelo que protege uma das fazendas do rei, a chácara Rosewood.

-Um nome hornês.

-Rosewood foi construída por Jared o Forasteiro, o único rei hornês de Cerenka, faz umas centenas de anos. Aquele bar em que os camaradas passaram a noite se encontra no Joelho de Tritão, uma das divisões de Baixo Tritão.

A charrete continuou pela cidade, enquanto o sol caia e a lua de prata se levantava mais majestosa e brilhante como nunca. Sob o luar, Írilo caiu num sono profundo enquanto a carroça ia à velocidade máxima que a mula, velha e gorda, podia, passando por avenidas e ruelas com a intenção de chegar a seu destino.

Virando numa esquina, o barulho de mercantes e animais latindo, cocoricando e mugindo cessa e Cramer vê luz mais à frente. Fogo. Se aproximando, pôde ver o que se passava. Uma casa ardia em fogo enquanto seus moradores eram presos do lado de fora pelo que parecia ser a Guarda Real Cerenki, conforme o Guia Oficial de Cerenka, revisado pelo grão-mestre Ol-H’Im. Vestiam couro e ferro preto, liso e brilhante, polido, com enfeites dourados e cota de malha. Todos vestiam a mesma armadura, com um capacete pontudo. Menos um, mais robusto, que não usava capacete e sim um pano dourado amarrado do lado do pescoço à cintura. Este, de cabelos negros e lisos caídos sobre os ombros, estava a estuprar uma mulher no beco ao lado da casa em chamas, enquanto crianças, homens e idosos eram levados a uma carroça de ferro. O que está acontecendo?! A cocheira não se pronunciou enquanto passavam pela casa. Nem se quer olhou para o lado, como se a terrível cena simplesmente não estivesse acontecendo, e isso irritava Cramer.

Quando finalmente se afastaram da casa, lorde Rydfox se pronunciou.

-O que estava acontecendo lá atrás?

-Aquilo é até normal hoje em dia, você vê. O rei regente deixa que a Guarda Real faça o que quiser desde que lhe traga espólios.

-E como os ministros aceitaram uma barbaridade dessas?

-Eles não aceitam, mas o rei ainda é o rei e pode fazer o que quiser. Esse psicopata foi eleito pelas famílias ricas e os ministérios, então de certa forma, não podem reclamar. E quem sofre com isso é o povo.

-E por que ele foi eleito?

-Você vê, sir Lerand, o rei, é da casa Hrook, da ilha Hrookrock. É perto de Horne, você deve ter passado por lá.

-Passei sim.

-Então, como deve imaginar, os Hrook fizeram sua fortuna pelo comércio de especiarias, vendendo temperos e concubinas cerenkis e vinho, carne salgada e lã hornesa. Em uma viagem para ilhas muito ao sul, pra lá de Horne, sir Lerand conheceu um povo nativo numa ilha enorme, quase um continente. Esses nativos lhe apresentaram uma espécie de pó que o deixa dez vezes mais forte que um homem viril. Quando os Hrook estavam com os cus cheios de ouro, decidiram se mudar para Alto Tritão e os ricos escolheram Lerand como rei por ser forte, disseram que poderá cuidar do reino em uma guerra. Mas se interessavam é nos cus cheios de ouro dos Hrook – explicou.

– Mas se o rei não toma partido em decisões políticas do reino, o que muda ele ser um bom guerreiro ou não? Além do mais, a paz está mantida em Cerenka há décadas.

-Acontece que nossas minas de cobre e prata se esgotaram, e um país próximo possui grande abundância mineral. Batalhas estão sendo travadas nas fronteiras nesse exato momento. Com sorte, é claro. E no caso de guerra, o rei comanda os exércitos, e não o primeiro-ministro.

-Para uma cocheira velha você é muito politicamente ativa.

-Como disse? –Indignou-se a velha, olhando para trás por cima de seus ombros duros.

-Desculpe milady, não quis ofender. – Disse Cramer, um pouco debochado, um pouco culpado.

-Oh, os deuses me ofenderam a tirar-me o olho, os dentes e a juventude. Você deveria agradecer por seus poucos cabelos pretos antes que todos fiquem brancos e que seus dentes apodreçam e caiam.

-A senhora fará hornês muito bem para uma cerenki.

-Meu filho, já fui hornesa, já fui cerenki, já morei em todo quinto dos infernos que possa imaginar. Depois de um tempo, simplesmente não importa.

Lorde Rydfox recostou a cabeça e cochilou um profundo sono, mesmo que por cinco minutos, e acordou por causa da forte luz que vinha de uma enorme casa em sua frente. Era quase um castelo, com uma grande porta dourada, guardada por dois guardas e iluminada por várias tochas em todo seu comprimento.

-Chegamos, rapazes! – Disse a cocheira, puxando Írilo da carroça, ainda dormente, até que o menino caiu no chão e acordou num susto.

Cramer pagou a senhora e agradeceu por tudo, enquanto Írilo puxava as bolsas e malas e andava em direção aos guardas.

-Senhora, acho que me esqueci de lhe perguntar teu nome.

-Bah, não importa. Eu sou uma velha cocheira, isso sim importa. Espalhe a palavra, a melhor cocheira e a mula mais parruda!- gritou a velha, balançando seus braços e, juntamente, estrias no alto.

Subindo na charrete, a velha deu a volta e antes de chicotear a mula para voltar para sua casa, seja lá aonde era isso, pronunciou-se:

-Ah, e quando ver Amesh, faça me o favor de cuspir na cara do desgraçado. O filho de uma égua me cobrou cinco moedas de prata para aliviar-me as dores na perna, e quando finalmente consegui o dinheiro, o safado apanhou-o e me roubou a dentadura.

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