Coragem e Bravura – Parte 1

A lua dourada brilhava sobre o mar negro naquela noite escura. Um pequeno bote de madeira tripulado por dois homens se afastava de um navio cargueiro mais distante e se dirigia à grande cidade em sua frente, que brilhava na escuridão do oceano.
– Cerenka é linda de noite, lorde Cramer.
-De fato – Assentiu. Qualquer cidade cheia de prostitutas e bebida é certamente linda à noite, Pensou.
Mas esse pensamento já não perambulava a cabeça de lorde Cramer. Não se importava com mulheres, posses, bebida, festa, ouro, nada. A única coisa que assombrava seus sonhos eram suas lembranças.
O barco estava sendo remado por Írilo, um esguio rapaz de pele escura, com o corpo marcado por cicatrizes e a icônica falta de um dedo na mão esquerda. Ladrão. Írilo vestia uma túnica branca sob um colete dourado, e um turbante cor de prata. Sua barba rala entregava a idade – pouca coisa a mais de 20 anos.
Entrando em um pequeno canal, provavelmente construído para embarcações de menor porte, o bote navegava aos pés de um enorme colosso feito de barro, pedra e ferro, igualmente a maioria das casas da cidade.
-Írilo, eu visitei todas as cidades guardas por colossos conhecidas pelos hornenses. Cerenka é a única cidade em que o colosso fica sentado ao lado dos canais. Qual é o motivo de tal peculiaridade?
-A crença cerenki diz que quando o Verdadeiro Rei reinar sobre Cerenka, o colosso irá se levantar e proteger a cidade, sendo completamente devoto ao novo rei, o único digno. Até lá, repousara à margem do rio.
-E você acredita nisso?- falou Cramer, tentando não ser ofensivo, coisa que já foi muitas vezes no passado e que lhe custou meia orelha.
-Acreditar ou não acreditar, meu senhor, que diferença faz? Há cinco mil anos o colosso nunca saiu do lugar, desde que foi construído pelos primeiros ministros. Temo nunca ver o Verdadeiro Rei sentar no Trono de Jade. Então se ele realmente vai se levantar ou se será engolido pelo vento e o tempo, não me importo desde que mantenha o povo calmo e esperançoso.
Írilo virou a cabeça para a esquerda e escarrou no rio, enquanto se aproximavam de um pequeno cais.
-Ministros, você disse… – falou Cramer, puxando um livro velho de dentro de sua bolsa de pano maltrapilho. O livro fora o dado pelo capitão do barco mercante em que viajou. Era um guia para Cerenka, com dicionário das várias línguas faladas na cidade e esclarecimentos sobre o sistema econômico e político de lá.
-Sim, a cidade possui um ministério que elege um primeiro ministro, sabe? Um homem que possui total controle da cidade. Já nosso rei é eleito toda vez que o rei antigo morre, mas não há nenhuma linha de sangue ou qualquer coisa do tipo. Algumas das dezenas de famílias nobres de Cerenka elegem um primogênito para ser escolhido como rei. A votação é feita pelos ministros e aprovada pelo primeiro ministro. – Disse Írilo, enquanto lorde Cramer franzia sua testa e folhava o livro em seu colo, tentando ler algo sob as sombras da noite.
-Mas afinal, qual poder tem o rei?
-Poder? Vários. Deveres? Isso é coisa do primeiro ministro.
-Então, basicamente, um rei é eleito para comer, beber e foder enquanto o primeiro ministro faz todo o trabalho.- Desrespeitoso.
-Bom, não é como se o Primeiro Ministro não tivesse nenhum salário ou remuneração. Ele ganha terras, sem falar das 500 moedas de ouro e 700 de prata mensais. Pode parecer estranho, mas isso é o que sustentou a cidade nos últimos séculos, lorde Cramer.
Cramer, ainda franzindo a testa, dobrou o livro e o deitou em seu colo. Rangeu os dentes e olhou para a cidade, brilhando como um sol da meia noite. Os deuses ignoram os pecados dessa cidade desonrosa como ignoram meus pedidos.
-Lorde Cramer- Disse Írilo, voltando a remar. – Olha, a cidade, mesmo que emergente, é inundada com corrupção e crime. É bom tomar cuidado.
Finalmente chegando ao pequeno cais de madeira, iluminado por algumas tochas e bem movimentado para um cais de pouco porte, Írilio amarrou o bote num pilar que sustentava o cais. Alguns homens andavam pelo cais, carregando caixas com especiarias e produtos diversos enquanto eram observados por um guarda usando uma túnica de couro escuro e um capacete de couro negro e pontudo.
Ao tentar sair do cais e seguir para as ruas de Baixa Cerenka, Cramer e Írilo foram barrados pelo guarda que se recostava no portal de ferro, guardando o cais.
Quem são vocês?- disse o guarda em uma língua que Cramer não pôde reconhecer.
Sou Írilo filho-da-poeira e este é lorde Cramer da casa Rydfox de Horne. O senhor sabe hornês?
-Cramer Rydfox o senhor é. Carta sua recebida foi por ministro Amesh. Ele reservou-lhe cama na estalagem Ratazana Sorridente – Disse o guarda, se esforçando ao máximo a tentar falar hornês. Ratazana sorridente? Encantador.

-O Ratazana Sorridente pertence a um casal de horneses, lorde Cramer, será fácil se comunicar por lá.- Afirmou Írilo.
E então a caravana de dois homens seguiu pelas ruas de pedra de Cerenka, observando sua vida noturna composta por meretrizes e mendigos passando fome, até chegar no Joelho de Tritão, a área mais favorecida da área pobre de Cerenka. Foi fácil encontrar o Ratazana pois, uma vez no Joelho de Tritão, bastava olhar para cima e ver a enorme placa sinalizando a entrada da estalagem com os dizeres “Ratazana Sorridente, o melhor bar de Cerenka!” escrito em pelo menos 6 línguas diferentes.
Entrando no Ratazana Sorridente, Cramer e seu servo foram confrontados com olhares impetuosos. Era claro que os frequentadores mais fiéis do Ratazana não apreciavam um rosto novo, ainda mais seguido por um ladrão que não fazia questão de esconder o fato de que havia perdido seu dedo anelar esquerdo para a guarda da cidade. Deuses me ajudem.
Cramer e Írilo sentaram-se em altos bancos de madeira na mesa do bar e pediram por cerveja queimada, uma bebida típica de Cerenka segundo o livro do capitão mercante. Pelas costas de Cramer, um brutamonte careca se levantava e não parecia estar muito contente. Seguido por outros três homens, o homem se aproximava das costas de lorde Cramer enquanto o bar se silenciava gradativamente.
Lorde Cramer deliciava-se com a bebida quando Írilo, engolindo a seco, bateu em seu braço esquerdo e o avisou dos rapazes mal intencionados que se aproximavam. Quando o brutamonte se aproximou de Cramer, o lorde esticou sua mão, esperando um comprimento e se pronunciou:
-Ola amigo, sou novo em Cerenka, poderia me informar qual bebida é mais saborosa e qual garota é a mais quente?
O brutamontes nada fez, se não manter os ombros contraídos e a cara de mau. Por um momento, olhou para seus companheiros, todos enraivados. Voltou seu olhar frio para Cramer e escarrou no chão empoeirado do Ratazana. Neste ponto, Írilo já havia rezado ao Verdadeiro Rei três vezes e suado frio cinco litros de suor.
-Tudo bem, entendo quando não sou bem recebido. Mas ainda assim, sobre aquela garota mais quente… Em quanto tempo você acha que sua mãe pode limpar seu órgão e descer das salas privadas do terceiro andar para meu quarto na sala cinco?
O brutamonte perdeu sua paciência e lançou sobre Cramer seu punho ossudo e enorme, junto com um grunhido alto e grave.
Cramer segurou seu punho e o jogou para o lado, dando a cara do homem a tapa. Írilo puxou seu copo de cerveja queimada e o quebrou na cabeça do mesmo. Outros dois homens tentaram atacar Cramer. Um deles teve sua barba ruiva cortada pela adaga que lorde Rydfox carregava com si, e então, atordoado, foi chutado no peito, voando sobre as mesas de bar. O outro tentou atacar Cramer com uma faca, e a mão que segurava a faca foi parar em sua boca.
O brutamonte, já acordado e pronto para atacar novamente, avançou em Írilo com uma estaca de madeira que se soltou de uma cadeira aonde o homem barbado fora arremessado. Cramer, aproveitando o avanço rápido do brutamonte a correr, lhe chutou os joelhos, resultando num grito agudo e uma grave queda ao chão.
Cramer guardou sua adaga e terminou sua bebida, deixando uma moeda de prata para a moça da taverna.
– Peço desculpa pela confusão.
No fundo do bar, o homem barbado rastejou-se ao corpo do homem que tentara atacar Cramer com uma faca.
-Pelos deuses, Jygor está MORTO!!!
Cramer admirou a cena frustrado, com as sobrancelha baixas. Virou-se para a moça da taverna e lhe entregou mais uma moeda de prata, enquanto apertava as bochechas e forçava um sorriso.
Subindo as escadas para a ala de quartos do Ratazana Sorridente, Cramer não pôde deixar de reparar que as calças branco-amareladas de Írilo estavam molhadas.
-Urinastes as calças, Írilo? – Perguntou Cramer
-Foi a cerveja, milorde.

 

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